Por volta das 07 da manhã, acordei com um abraço do meu namorado e um lambeijo da minha cachorra. Passei algum tempo na cama sem fazer nada, minutos que carinhosamente chamo de “o tempo que a alma leva pra fazer download”, e quando levantei, meu companheiro estava passando um café quentinho pra nós dois. Comemos pão com ovo no desjejum e depois cortei um kiwi, duas rodelas grandes de abacaxi e meia caixa de morango pra comer enquanto resolvia um quebra-cabeça diário do New York Times. Passei o restante da manhã resolvendo demandas pessoais e, posteriormente, escrevi este texto. Em outros dias, teria ido ao pilates ou academia nesse horário também. Meus dias não diferem muito disso.
Se eu tivesse gravado um vídeo pro Tiktok mostrando como é minha rotina da manhã, posso apostar que o último nicho em que o algoritmo classificaria esse tipo de conteúdo seria o de política. Porém, ironicamente, não há nada mais político do que a vida cotidiana.
Sobretudo durante o período eleitoral costumamos achar que política é o que fazemos quando vamos às urnas. De dois em dois anos, sentimos que nossa vida política se agita por um ou dois finais de semana, mas depois acabou. No máximo quando a fala de algum deputado viraliza ou algum presidente estrangeiro comete uma gafe, sentimos que o nosso senso político voltou a ser usado por alguns minutos, mas depois nos desligamos dele por completo e seguimos com nossa vida cotidiana como se ela fosse tudo, menos política.
Pra te provar o contrário, permita-me narrar novamente tudo o que aconteceu hoje de manhã, dessa vez com outras palavras:
Acordei às 07 da manhã porque não precisava estar em pé desde as 05:30 para pegar um ônibus em direção ao trabalho. Além do tempo maior de descanso, isso me possibilita economizar com transporte. A cachorrinha que veio me cumprimentar na cama se chama Momo, mas três anos atrás, ela não tinha nome. Era apenas uma vira-lata encontrada suja e amedrontada nos arbustos de um prédio até ser resgatada por uma família solidária e depois ter sido adotada por mim. Tive o privilégio de passar algum tempo na cama porque eu mesma decido meus horários, já que tirei esse ano para me dedicar totalmente ao meu trabalho acadêmico em vez de trabalhar em algum emprego formal. Mas pra muita gente, essa escolha nem existe. Meu parceiro, que é um homem, estava passando o café enquanto eu descansava um pouco mais porque nessa casa, acreditamos que o cuidado deve ser compartilhado e as tarefas domésticas não recaem exclusivamente sobre mim só por ser mulher. O pão que compramos na padaria foi muito provavelmente feito com trigo importado pro Brasil em dólar, trigo esse que não é plantado em solo nacional porque o que dá dinheiro é soja ou pasto, e ficamos reféns do agronegócio. Já que temos acesso fácil e rápido a alimentos frescos e in natura, quase não como ultraprocessados e todas as frutas que comi foram compradas num hortifruti a menos de dois quarteirões de casa. Ir ao pilates ou à academia de manhã implica não só o dinheiro da mensalidade, mas o tempo para se exercitar; ambos os recursos escassos na vida da maior parte da população brasileira.
São 11:45 e tudo o que me aconteceu hoje foi político.
Se você teve que acordar mais cedo do que eu, ou se ficou acordado até mais tarde porque trabalha no turno da noite, ou vai ter que comprar uma quentinha pro almoço porque não teve tempo, condições práticas ou energia pra preparar uma marmita e levar pro trabalho, tudo isso também é político. Sua vida e a minha só são como são por causa de uma série de decisões políticas, algumas tomadas por nós mesmos e outras sobre as quais temos pouco ou nenhum poder de influência.
Eu posso controlar, por exemplo, quanto tempo e energia são gastos com coisas que me foram impostas simplesmente por ter nascido mulher. Me olho no espelho e não sei quando foi a última vez que fiz a sobrancelha. O buço (famoso bigode) eu sei: nunca. Não entra na minha cabeça por que eu deveria pagar e sentir dor, ainda que brevemente, por um ritual ao qual só mulheres são submetidas para cumprirem com expectativas sociais de feminilidade que só servem para disciplinar nossos corpos. Escolho meia hora a mais de sono do que meia hora secando o cabelo depois de sair do banho. É uma escolha mais saudável para o meu cabelo, tenho certeza, mas é principalmente uma escolha política sobre o investimento do meu recurso mais precioso. Pra muita gente, essa escolha nem existe ou até mesmo quando existe, é influenciada por fatores externos, como a indústria da beleza ou o olhar masculino determinado pelo patriarcado. E isso também é político.
Por outro lado, tenho pouco ou nenhum poder de interferir na política adotada pelo Lula mediante as sanções tarifárias colocadas pelo Trump. Mas tenho, ainda que de quatro em quatro anos, a oportunidade de escolher quem estará gerindo a política externa brasileira pelo próximo quadriênio. Não posso, sozinha, aprovar o fim da escala 6x1. Porém, novamente, posso eleger deputadas e senadoras que, assim como eu, acreditam que o bem mais precioso que temos é o nosso tempo; e que entendem que muitos brasileiros quase não conseguem usá-lo para ficar com suas famílias ou descansar em virtude de uma jornada de trabalho extenuante.
Existem argumentos mais interessantes pra explicar por que se importar com política é da maior e mais importante ordem. Dá pra fazer isso com muita pesquisa e dados, ou com a filosofia de Platão, Aristóteles ou Maquiavel. Mas eu não conheço pessoalmente o Platão, nem Aristóteles, e muito menos Maquiavel. E não sei pra vocês, mas não consigo me importar com números que foram simplesmente inventados por algum homem sem graça num escritório cafona no topo de um prédio estadunidense.
O que eu consigo é me importar é com o Brasil em que vivo todos os dias. Com minha família que mora lá no Maranhão e não tem asfalto de qualidade em boa parte das ruas. Com a cidade de Belo Horizonte, onde moro, que tem sido cada vez mais afetada pela mineração predatória. Consigo me importar com meu bairro, que tem um dos bares mais legais de BH (alô, Faísca!), mas que sofre com uma legislação péssima sendo feita pela câmara de vereadores que dificulta cada vez mais a atuação dos bares e o transporte público noturno pras pessoas que trabalham nesses empreendimentos. Consigo me importar com o preço do pão e das frutas que compro todos os dias, produzidos majoritariamente por uma cadeia de pequenos produtores, e não pelo agronegócio. Consigo me importar com minha vizinha do andar de baixo que é uma pessoa idosa e de vez em quando precisa de ajuda pra tarefas que envolvem tecnologia porque o letramento digital (ou a falta dele) exclui muitas pessoas de processos que deveriam ser acessíveis. Consigo me importar com os animais de rua, porque os dois cachorros que tenho em casa já foram como eles.
E me importo também com todo o conhecimento que é produzido nas mais refinadas universidades e centros de pesquisa em todo o Brasil, mas que dificilmente chega à maioria das pessoas, seja por falta de interesse, acesso ou tempo. É por isso que este espaço também é político. Porque você pode ler isso aqui quando está colocando seu bebê pra dormir sem precisar acordá-lo ou sentado no metrô indo trabalhar. Porque é criando uma comunidade que construímos a política do café da manhã, da vida cotidiana.
Este é um espaço mais pessoal, onde vou compartilhar um pouco das minhas opiniões e experiências, sempre tendo como horizonte de que forma isso se conecta com as questões políticas do nosso tempo. Arte, cultura, ciência, comunidade. Tudo aponta pra uma vida que só pode ser construída em sociedade e por todas as decisões políticas intrínsecas a isso.


